Por um céu instagramável

Eu sou aquela fresta de céu azul que aparece por trás da nuvem cinza que é você.
Insistindo em brilhar mesmo quando você vem carregado de chuva tentando esconder minha luminosidade e tapar o meu sol.

Você é aquela nuvem egoísta que deixa tudo escuro antes da hora. Faz parecer que o dia não amanheceu ou faz a tarde parecer noite antes mesmo da hora de escurecer.

Por isso estou enviando minha luz, aquela forte do meio dia, para clarear tudo enquanto espero suas nuvens serem empurradas para outras bandas. Quero uma nuvem limpa que deixa o meu céu ainda mais bonito. Do tipo que faz as pessoas terem vontade de tirar foto e postar no instagram.

Isso mesmo.
Decidi que na minha vida só entram pessoas que deixam meu céu instagramável.

As incríveis primeiras aleatoriedades de 2017

#1 Respira amor, aspira liberdade
Ontem eu e uma amiga começamos a pensar sobre como ciúme é egoísta e como a gente precisa amar de forma mais livre, sem aprisionamento e obsessão. Em menos de 15 minutos estávamos fazendo planos infalíveis para descobrir com quem o crush está ficando.

#2 Pessoa silenciosa, mente barulhenta
Outro dia cedinho no café da manhã, minha mente estava tão agitada que parecia uma barulheira só na minha cabeça. Fiquei realmente muito surpresa quando notei que, na verdade, estava um silêncio sepulcral na casa. E finalmente entendi porque nunca me senti solitária morando sozinha.

#3 Geração lista
Na virada do ano pensei “não vou fazer resoluções de ano novo porque não quero me pressionar ou me frustrar, vou ficar mais leve”. Uma grande mentira, eu sou viciada em listas e já anotei tudo mentalmente, só não coloquei no papel.

– Emagrecer
– Fazer exercícios
– Ter um plano B
– Terminar de decorar a casa

Pronto, me rendi. Agora foi.

#4 Sincretismo religioso
Eu sou uma pessoa um tanto quanto espiritualizada. A primeira coisa que fiz quando cheguei de viagem foi tirar uns minutos para agradecer. Eu botei uma música gospel que amo enquanto tentava meditar entoando um mantra budista, depois pedi uma direção pros orixás e li meu horóscopo para 2017. Obrigada Jesus e Beyoncé.

Eu realmente queria ter um texto bem interessante para postar como o primeiro do ano. Mas não deu gente, juro, porque 2017 começou cheio de maravilhosas aleatoriedades. Feliz ano novo. <3

Vocês vão ter que me engolir

Houve um tempo em que eu jurava que nunca seria capaz de viver sozinha. E tinha muita gente que também desacreditava.

Da lista de coisas que eu também me julgava incapaz estão: dormir sozinha, cozinhar bem, pedir comida pelo telefone, ir ao médico sem a mãe, me comunicar com estranhos, superar timidez, ser 100% independente.

Mas eu vinha de uma crescente de aprendizados e absorção de mundo desde 2014 e esse ano tudo explodiu. Posso dizer que 2016 foi o ano das surpresas. Para o espanto geral eu superei com sucesso todos os itens citados aqui em cima.

Peguei todo o autoconhecimento adquirido nos últimos dois anos, liguei o modo Zagallo e mandei um “vocês vão ter que me engolir”. Abracei minha própria personalidade e joguei na cara das pessoas, juntei os pequenos pedaços de repressão que guardava e coloquei na salinha do lixo e fui, simplesmente, pasmem, eu mesma.

Dentro de mim sempre tive a menina fofinha e a mulher intensa, você conhecia uma ou a outra ou as duas, dependendo do nível de intimidade. O que fiz durante o ano foi apenas aprender a equilibrar as duas com mais segurança. Coisa de geminiana, lidar com essa certa dualidade. Aceitação, descoberta, força, florescimento e empoderamento foram minhas palavras desse ano.

Tanta coisa aconteceu, muita coisa boa e ruim, mas de longe a mais forte de todas foi aproveitar a chance de ser do jeito que eu bem entender.

2016 foi o ano de me sentir ainda mais Dandara. Termino dezembro repetindo o meu vim pra ficar, agora mais verdadeiro do que nunca.

Sensitiva

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Chegou e mudou toda minha percepção de 5 sentidos.

Me encheu de tato, me apresentou novas possibilidades de audição, temperou meu olfato e abriu uma nova porta para o meu paladar, às vezes amargo, mas na grande maioria deixa um gosto salgado na boca, meu sabor preferido.

Sinto tudo novo. Sinto tudo de novo. Entro em mundo de infinitas sensações. Tenho todos os sentidos mais aguçados do que nunca e estou pronta para embarcar nessa viagem sensorial com você.

Chegou, mudou tudo, se instalou na minha pele sem convite e me fez sensitiva.

Pelos chãos de vidro que passei

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Tenho um último dedinho segurando a beira do buraco que abriu aos meus pés.

Passei dias, meses, anos pensando duas vezes antes de dar cada passo com medo de ouvir aquele som familiar de vidro sendo quebrado. Um passo em falso e pronto, mergulho para o fundo do poço da perda de controle. É alucinante. Desesperador. Aterrorizante.

No fim do mergulho encontro outro chão de vidro, que trinca com o baque do meu corpo caindo desajeitado.

Mais uma vez o ciclo se repete, mas dessa consegui me agarrar na beirada e quero descer sozinha. Cansei de desabar. Decidi conhecer meus passos e pisar só onde quero. O chão quebrava e eu, de medo, não tinha tempo de olhar ao redor. Se antes eu soubesse que poderia descer aos poucos, no meu tempo, degrau por degrau, já sabendo o que iria encontrar no andar de baixo.

Mas de cada chão de vidro que desabei, descobri que sou forte o suficiente para me levantar e que sou suficiente para escolher por onde quero andar.

Depois de anos em chão de vidro, hoje solto da beirada e escolho pegar as escadas.

*Imagem: ohgigue

Boa noite, Segunda.

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Cheguei esbaforida, como sempre, por causa dos quatro lances de escada. Tomei um banho morno. Daqueles gostosos, nem quente, nem frio, como uma noite de um verão que insiste em não acabar em São Paulo pede.

Dei uma última olhada no celular, tomei um copo d’água e fui pra cama. Mais uma vez deitei com a cabeça no travesseiro desejando que você estivesse ali
comigo.

Olhei para o escuro sozinha. A única que estava lá era a Segunda que ia embora quietinha com todo o desprezo que o mundo tem por ela e com a promessa de voltar com um humor melhor na semana que vem.

Boa noite, Segunda. – Eu disse.
Ela optou por permanecer silenciosa.

Imagem: Jenny Yu

O inevitável não sei

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Comecei o ano sem saber. Assim como nunca soube a minha vida inteira. Lembro que quando era mais nova meu apelido na família era “ah, não sei”. Sempre foi a resposta mais rápida e que saía da minha boca involuntariamente antes mesmo do meu cérebro processar a pergunta.

– Cadê sua mãe?
– Ah, não sei.

– O que você quer de Natal?
– Ah, não sei.

– Onde você guardou aquela blusa?
– Ah, não sei.

– Do que você quer brincar?
– Ah, não sei.

Continuo sem saber e isso nem é uma grande novidade. O novo é que uma das coisas que aprendi em 2015 foi parar de tentar descobrir. Mais do que aceitar sua falta de controle com o acaso, eu decidi apenas parar de ter medo do destino e parar de me culpar por não conseguir decifrá-lo antecipadamente. Tudo isso sem parar de planejar, ou de desejar, ou de me esforçar para que as coisas aconteçam. Não é um “deixa a vida me levar”, mas também não é ficar se corroendo pelo bendito “e se” e pelo medo da escolha errada. Sabe? Não? Nem eu. A graça é essa mesmo.

O que você vai fazer com uma faculdade de letras? Você vai sair da casa da sua mãe? Você vai viajar? O que vamos jantar?

Ah, não sei.
Ainda não consegui descobrir nem do que eu vou querer brincar.

*Imagem: Kathrin Honesta (coisalindadedeus <3)

Eu sou irmã dele, sabia?

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Um dos momentos mais marcantes do vídeo do meu nascimento é quando meu irmão diz firme, anunciando ao mundo como quem quer deixar registrado: “eu sou irmão dela, sabia?”.

Naquele dia na maternidade, ele já se mostrava pronto para amar e cuidar. Exatamente como precisou fazer.

Se tem uma coisa que eu aprendi é que na vida as coisas acontecem como devem ser. Eu nasci exatamente uma semana antes do meu irmão completar nove anos. Já pensou se minha mãe tivesse tido um filho em qualquer momento antes disso?

Ninguém tomaria minha lição do colégio e daria CDs do Iron Maiden para uma menina de oito anos. Ninguém ia oferecer uma mesada de R$ 10,00 se eu lesse um livro por mês. Ninguém ia me cobrir antes de dormir ou deixar fotos minhas no armário da república da faculdade.

Ninguém ia ganhar meu respeito sem precisar ordenar. Ninguém ia ganhar minha admiração sem precisar se esforçar. Ninguém ia ser o melhor homem do mundo sem precisar ser.

Ninguém seria como nós. Já que foram os quase exatos nove anos de diferença que nos fez assim.

<3

Carta de amor para Peninha

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Peninha era assim: cabelo bem curtinho, correndo descalça e sem blusa pela cidade.

Moleca.

Dava nó até em pingo d’água. Cutucava centauro no meio do mata-burro com vara curta (história real, mas muito longa para o momento). Vestia-se para o baile da cidade antes de pedir permissão ao pai para ir, assim era mais fácil dele falar sim.

Peninha não era a mais bonita, mas tinha os meninos mais cobiçados do pedaço aos pés. Acho que era pela sua atitude.

Ah, como Peninha só fazia o que queria. Quis vir para São Paulo, e veio. Quis casar, e casou. Quis estudar, e estudou. Quis filhos, e teve.

Estou aqui.

Porque a vida é assim, ela passou por tempestades e desertos. Lutou, chorou, sofreu, perdeu, ganhou, caiu e levantou. Nunca se deixou abater, sempre sorrindo.

Ah, como é bonito teu sorriso, Peninha.

De todas as qualidades dela, a felicidade é a que eu mais gosto. Fazer o que te dá prazer e o que te faz feliz é uma modinha atual, mas que Peninha lançou em 1961. E vive assim até hoje.

Peninha me deu o mundo. Me jogou na vida e me disse: seja feliz, ou não seja nada. Obrigada, essa é a maior lição que você me ensinou.

Com o nome que você escolher dentre os que eu e a vida te demos – Peninha, Maria, Narina, e por aí vai… – eu só queria que você soubesse que eu já não sou mais tão pequenina, mas estou aqui, velando pelo seu destino e cuidando do seu viver. Sempre. Eu te amo, mãe.

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Na foto minha mãe, Fátima Sanches na 4° série. Quando era conhecida como Peninha, porque corria mais que todos os meninos e era muito magrinha.

Quem restaurou e deixou a foto linda foi a minha amiga querida Gabriela Biscáro, que mais uma vez me presenteou com seu talento. Obrigada!