Vocês vão ter que me engolir

Houve um tempo em que eu jurava que nunca seria capaz de viver sozinha. E tinha muita gente que também desacreditava.

Da lista de coisas que eu também me julgava incapaz estão: dormir sozinha, cozinhar bem, pedir comida pelo telefone, ir ao médico sem a mãe, me comunicar com estranhos, superar timidez, ser 100% independente.

Mas eu vinha de uma crescente de aprendizados e absorção de mundo desde 2014 e esse ano tudo explodiu. Posso dizer que 2016 foi o ano das surpresas. Para o espanto geral eu superei com sucesso todos os itens citados aqui em cima.

Peguei todo o autoconhecimento adquirido nos últimos dois anos, liguei o modo Zagallo e mandei um “vocês vão ter que me engolir”. Abracei minha própria personalidade e joguei na cara das pessoas, juntei os pequenos pedaços de repressão que guardava e coloquei na salinha do lixo e fui, simplesmente, pasmem, eu mesma.

Dentro de mim sempre tive a menina fofinha e a mulher intensa, você conhecia uma ou a outra ou as duas, dependendo do nível de intimidade. O que fiz durante o ano foi apenas aprender a equilibrar as duas com mais segurança. Coisa de geminiana, lidar com essa certa dualidade. Aceitação, descoberta, força, florescimento e empoderamento foram minhas palavras desse ano.

Tanta coisa aconteceu, muita coisa boa e ruim, mas de longe a mais forte de todas foi aproveitar a chance de ser do jeito que eu bem entender.

2016 foi o ano de me sentir ainda mais Dandara. Termino dezembro repetindo o meu vim pra ficar, agora mais verdadeiro do que nunca.

O inevitável não sei

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Comecei o ano sem saber. Assim como nunca soube a minha vida inteira. Lembro que quando era mais nova meu apelido na família era “ah, não sei”. Sempre foi a resposta mais rápida e que saía da minha boca involuntariamente antes mesmo do meu cérebro processar a pergunta.

– Cadê sua mãe?
– Ah, não sei.

– O que você quer de Natal?
– Ah, não sei.

– Onde você guardou aquela blusa?
– Ah, não sei.

– Do que você quer brincar?
– Ah, não sei.

Continuo sem saber e isso nem é uma grande novidade. O novo é que uma das coisas que aprendi em 2015 foi parar de tentar descobrir. Mais do que aceitar sua falta de controle com o acaso, eu decidi apenas parar de ter medo do destino e parar de me culpar por não conseguir decifrá-lo antecipadamente. Tudo isso sem parar de planejar, ou de desejar, ou de me esforçar para que as coisas aconteçam. Não é um “deixa a vida me levar”, mas também não é ficar se corroendo pelo bendito “e se” e pelo medo da escolha errada. Sabe? Não? Nem eu. A graça é essa mesmo.

O que você vai fazer com uma faculdade de letras? Você vai sair da casa da sua mãe? Você vai viajar? O que vamos jantar?

Ah, não sei.
Ainda não consegui descobrir nem do que eu vou querer brincar.

*Imagem: Kathrin Honesta (coisalindadedeus <3)